Os ataques cibernéticos dizem respeito a três de cada quatro empresas em Portugal

Portugal é o terceiro país do mundo que mais ataques informáticos recebe. Em 2016 foram detectadas 115.000 incidentes, dos quais 480 afetaram a hospitais e aeroportos, entre outros.
A segurança cibernética, como a mudança climática, é tão alarmante como intangível. Três de cada quatro empresas espanholas foram vítimas de ataques virtuais nos últimos cinco anos. No entanto, apenas 37% tem um plano de resposta a incidentes deste tipo. A nível mundial, o custo dos ciberataques a empresas ascende a um total de 265 milhões de euros. No caso de Espanha, encontramos que é o terceiro país com mais ofensivas a nível mundial, depois do Reino Unido e Estados Unidos.
A escalada é exponencial e, as cifras alarmantes. Em 2016, o Instituto Nacional de Segurança (Incibe) detectou mais de 115.000 ciberincidentes, dos quais mais de 110.000 afetaram local e o setor privado, e 480 infra-estruturas críticas -aeroportos, hospitais, centrais elétricas ou em plantas de água-. Só no primeiro trimestre deste ano, a Espanha recebeu 50.000 ataques cibernéticos, 247 em estruturas críticas. Nesse ritmo, nós poderíamos alcançar as 150.000 ofensivas até o final deste ano. No ano passado, foram registrados 66.586 ciberdelitos, 10,7% a mais, de que 68% foram fraudes e golpes e 17,2% de ameaças e coações.
“Estamos acima da média de ataques, pois estamos sob a proteção de equipamentos. Muitas vezes não valorizamos o que temos dentro de um dispositivo, e não fazemos o possível para protegê-lo”, disse ontem José Antonio Neto Ballesteros, Secretário de Estado de Segurança do Ministério do Interior, em uma conferência sobre segurança cibernética, organizada pelo Clube Diálogos para a Democracia.
O “negócio” é rentável. Atualmente responde por cerca de 0,8% do PIB mundial, ou seja, movimenta mais dinheiro do que a maioria de crimes, como é o caso de tráfico de estupefacientes. Por parte da cibersegurança também, alcançando os 76.000 milhões de euros por ano em todo o mundo. “A magnitude do problema ainda está longe de ser entendido pela maioria. Não se está respondendo, nem com a velocidade ou a força que deve ser”, disse Henrique Cubeiro Cabelo, Chefe de Operações do Comando Conjunto de Ciberdefesa do Estado-Maior de Defesa. É o grande problema de o intangível, o que faz com que não vamos acabar de crer-nos o que não vemos.
Mas do vírus passamos à epidemia e do sem-fim da praga. Em dezembro de 2015, o cavalo de tróia BlackEnergy provocou cortes no fornecimento de energia elétrica a mais de 600.000 famílias ucranianos em pleno inverno. As ofensivas contra estruturas críticas são as mais preocupantes. Passaram de 63 em 2014, a 134, em 2015, e para 479 em 2016. No passado dia 12 de maio, o incidente do ransomware Wannacry afetou mais de 25 hospitais. Perante a impossibilidade de aceder ao sistema informático, muitos deles tiveram que transportar pacientes graves a outros hospitais próximos. Nos últimos dois anos, mais de 4.000 ataques cibernéticos se identificam com o tipo ransomware -caracteriza-se por seqüestrar a informação e exigir um resgate-. Trata-Se do principal malware na Europa.
Wannacry afetou mais de 300.000 computadores de 180 países. Em Portugal, foram 1.200 equipamentos. “A reação foi rápida e ele pôde controlar o impacto de forma imediata”, explicou ontem Antonio Gaviões Dumont, presidente do Clube Diálogos para a Democracia. O caso mais soado foi a Telefônica, embora José Luis Gilpérez, diretor executivo de Administração Pública, Defesa, Segurança e BigData da Telefónica, garantiu ontem que “o impacto real de Wannacry foi zero”. O grupo de telefonia aumentou suas receitas na área de segurança de um 22,7% em 2016, até 341 milhões.
“Isso é um trabalho de todos os agentes públicos e privados”, disse Marcos Gómez, Diretor de Serviços de segurança cibernética do Incibe. Depois do incidente, Reino Unido decidiu investir cerca de 13.000 milhões de euros em segurança cibernética. Em Portugal não há uma posição definida da Administração Pública, embora Neto assegurou que “temos as ferramentas para prevenir e uma participação elevada dos técnicos e da iniciativa privada para conseguir que a Espanha seja uma matéria de segurança virtual como física”.

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